A Província de Buenos Aires abriu uma discussão com o Governo nacional sobre o uso de serviços de computação em nuvem da Amazon e Google para armazenar e processar informações públicas. Sandra D'Agostino, subsecretária bonaerense de Governo Digital, contrapôs essa estratégia com a infraestrutura própria desenvolvida pela gestão provincial. Seu argumento central é que modernizar o Estado não exige transferir a um fornecedor privado a capacidade de decidir onde ficam os dados nem como a tecnologia é administrada.
D'Agostino esclareceu que a posição provincial não implica rejeitar a Amazon, Google ou Microsoft, empresas com as quais o governo de Buenos Aires também trabalha. A diferença, explicou, aparece quando todos os dados e a tecnologia ficam concentrados em uma única nuvem privada. Nesse cenário surge o chamado vendor lock-in: uma dependência tecnológica e operacional que dificulta mudar de fornecedor e pode transferir um conflito legal para outra jurisdição, como o Brasil.
O aviso adquire outra dimensão pela natureza da informação estatal. A Província processa documentação administrativa e sistemas vinculados à saúde, trabalho, trânsito e outros serviços públicos. D'Agostino afirmou que o Estado deve garantir integridade, confidencialidade e segurança, e expressou dúvidas sobre o local em que são armazenados os dados de organismos nacionais como o Renaper. Essa referência foi feita como uma preocupação da funcionária, não como uma localização comprovada.
O modelo bonaerense se apoia no Centro de Procesamiento de Datos inaugurado em 2024 dentro do terreno da Comisión de Investigaciones Científicas, em Gonnet. A instalação presta serviços a 52 áreas de informática de diferentes organismos e também oferece capacidade a municípios. Lá funcionam sistemas de IOMA, Historia Clínica Digital, multas de trânsito, o Ministério do Trabalho e GDEBA, a plataforma de gestão documental provincial.
A funcionária destacou que uma nuvem estatal não impede contratar capacidade privada para necessidades pontuais de processamento intensivo. Essa utilização, segundo sua colocação, deve ser temporária e não modificar o controle estratégico sobre a informação. Também questionou que a Nação recorra a fornecedores externos quando dispõe de infraestrutura pública através da ARSAT e reclamou maior transparência sobre os projetos tecnológicos e os convênios vigentes com empresas.
O debate se projeta sobre a inteligência artificial. Desde 2024, Buenos Aires trabalha em ferramentas e critérios que define como Inteligencia Artificial Soberana, uma capacidade que D'Agostino considera inseparável do domínio sobre os dados. A controvérsia deixa em aberto duas perguntas concretas para a administração nacional: onde permanece a informação pública contratada na nuvem e quais condições asseguram que o Estado mantenha a possibilidade de escolher fornecedor, tecnologia e jurisdição.