A legisladora da cidade de Buenos Aires Victoria Freire rejeitou que a legalização da interrupção voluntária da gravidez seja a principal causa da queda da natalidade em Argentina. Sua resposta foi dirigida ao presidente Javier Milei e à vice-chefe de Governo da Cidade, Clara Muzzio, que haviam vinculado ambos os fenômenos em intervenções públicas recentes.
Freire apontou que os nascimentos têm diminuído de forma sustentada desde 2014, enquanto a lei de interrupção voluntária da gravidez foi aprovada em 2020. Segundo seu cálculo, cerca de 90% da redução registrada até o momento já havia ocorrido antes da legalização. A diferença temporal questiona uma explicação única, embora por si só também não determine todas as causas demográficas.
A deputada acrescentou que países onde o aborto continua proibido também experimentam quedas na natalidade. Seu argumento busca situar o fenômeno dentro de uma tendência internacional associada a mudanças nos projetos de vida, no emprego, na habitação e na organização do cuidado. A comparação exige considerar diferenças sociais e institucionais entre os países e não equivale a uma prova isolada.
Outro dado destacado foi a diminuição das gravidezes na adolescência. Freire afirmou que desde 2005 caíram um 64% entre menores de 19 anos e atribuiu parte desse resultado ao Plano Nacional de Prevenção da Gravidez Não Intencional na Adolescência, que combinou educação e acesso a anticoncepcionais. Apresentou essa evolução como um avanço em autonomia, não como um problema que deva ser revertido.
A legisladora citou também uma pesquisa nacional da UNFPA realizada entre janeiro e fevereiro de 2026 com 1.515 pessoas de 18 a 70 anos. O estudo encontrou que 57% daqueles que têm entre 18 e 45 anos não alcançou a quantidade de filhos desejada e que as barreiras econômicas e de cuidado explicam 62% desses casos. A amostra foi ponderada com parâmetros do Censo 2022.
Freire também mencionou que criar uma criança ou adolescente na cidade custava em agosto entre ARS 998.061,25 e ARS 1.610.211,71, dependendo da idade e do gênero. Sua intervenção não encerra o debate sobre natalidade, um fenômeno multicausal, mas desloca o foco de uma lei específica para as condições materiais e a autonomia reprodutiva. Ele não apresentou um novo projeto de lei nem uma política integral para reverter a tendência.