A crise da Celulosa Argentina voltou a mostrar seu lado trabalhista em Santa Fe. Enquanto o concurso preventivo se estende pela quantidade e complexidade das reivindicações de credores, a empresa ofereceu pagar imediatamente apenas 30% dos salários e completar o restante na semana seguinte, condicionado à obtenção de financiamento.
O processo tramita no Juizado de Primeira Instância Civil e Comercial de Primeira Nomeação de San Lorenzo. A sindicatura apresentaria o relatório individual apenas em 30 de março de 2027, etapa decisiva para definir quais créditos serão reconhecidos e por quais valores. Antes disso, em 10 de novembro de 2026, é esperado um relatório de avanço sobre a revisão documental.
A demora judicial se soma a um quadro financeiro de grande escala. O passivo estimado no momento da apresentação superava 140 milhões de dólares, depois que a companhia não conseguiu enfrentar vencimentos de curto prazo de cerca de 18,5 milhões de dólares. A situação expôs a fragilidade de uma empresa histórica, com fábricas e fornecedores atravessados pela falta de liquidez.
A tentativa de resgate também ficou condicionada por movimentos societários e ativos estratégicos. A CIMA Investments assumiu o controle acionário da empresa em 2025 por um valor simbólico, com um plano que incluía assumir dívida financeira, lançar uma oferta pública obrigatória e injetar capital de trabalho para reativar operações em Capitán Bermúdez e Zárate.
A tensão aumentou com a intervenção plena da Forestadora Tapebicuá, sociedade controlada pela Celulosa e chave para o abastecimento de madeira. A nomeação de uma interventora deslocou a administração anterior com o objetivo de preservar ativos durante a reestruturação e antes do período de exclusividade previsto para outubro.
A frente mais sensível é a dos trabalhadores. Em uma audiência no Ministério do Trabalho provincial, a empresa expôs sua dificuldade de caixa e condicionou o pagamento restante dos salários à obtenção de crédito e à ausência de medidas de força. Os sindicatos rejeitaram a proposta e também questionaram as acusações empresariais sobre supostos sabotagens em máquinas do complexo de Capitán Bermúdez.
O caso concentra, em uma mesma cena, crise industrial, dívida financeira e conflito salarial. Para Santa Fe, o desfecho importa não apenas pela continuidade de uma companhia centenária, mas também pelo impacto sobre empregos, fornecedores e atividade produtiva em uma região onde cada paralisação industrial é sentida além da planta.