A oposição argentina intensificou a preparação para 2027 em torno de uma pergunta que atravessa o peronismo, a esquerda e outros setores críticos do governo: a estratégia deve ser construída principalmente como uma frente contra Javier Milei ou precisa também apresentar um programa positivo, indicando políticas e coalizão? O debate segue aberto enquanto crescem os atos, as viagens territoriais e as iniciativas de diferenciação.
O lançamento nacional do Movimento Direito ao Futuro em Avellaneda, liderado pelo governador Axel Kicillof, acelerou essa discussão. Kicillof apresentou o grupo como alternativa ao governo e depois participou de atividades políticas e institucionais nos Estados Unidos. Esses movimentos coincidem com a organização de outras forças e com a necessidade de definir alianças, candidaturas e regras de decisão sem deixar que as disputas internas dominem a mensagem pública.
Uma pesquisa da Proyección Consultores, feita em setembro com 1.354 casos, entrou no debate como retrato da rejeição. Questionados sobre votar em qualquer opção para impedir a vitória rival, 40,5% responderam em relação a evitar a reeleição de Milei e 35,7% a impedir uma vitória peronista ou kirchnerista. O levantamento registra opiniões de um momento específico; não é previsão eleitoral nem substitui a comparação de propostas.
Na esquerda, dirigentes ligados à Frente de Esquerda afirmam que um acordo limitado à oposição ao presidente deixaria sem discussão o rumo econômico e as reformas do governo. Citam a reforma trabalhista, o Decreto 70/2023, os incentivos a grandes investimentos e mudanças relativas à proteção de geleiras. Também defendem recompor salários e aposentadorias e reforçar os orçamentos de universidades, saúde e políticas para pessoas com deficiência.
No peronismo, a discussão combina a ampliação da coalizão com a preservação de uma identidade programática. Representantes de várias correntes pedem compromissos sobre renda, produção, emprego e proteção social. Persistem diferenças sobre liderança, relação entre estruturas partidárias e grupos emergentes e a forma de impedir que a escolha de candidatos desloque o debate sobre as políticas de uma eventual administração.
Máximo Kirchner acrescentou à agenda uma proposta de Imposto sobre Transferências Internacionais de Capital. O projeto prevê 3% sobre determinadas saídas de capital e mais 2% quando o destino for uma jurisdição de baixa ou nenhuma tributação. Seus autores estimaram que, aplicado às operações de 2025, poderia ter arrecadado 2,89 trilhões de pesos. A estimativa deverá ser examinada pelo Congresso com o alcance, os efeitos e os controles da medida.
Dirigentes da Frente Renovadora sustentam que a oposição ao rumo atual e a apresentação de uma alternativa não se excluem. Propõem uma frente ampla que preserve diferenças internas, mas acorde prioridades e uma base comum. A fórmula ainda precisa definir participantes, distribuição de representação e critérios para transformar diagnósticos compartilhados em compromissos verificáveis diante do eleitorado.
Os próximos meses terão novas viagens, congressos partidários e projetos legislativos. O desafio imediato não é apenas reunir dirigentes sob uma mesma denominação, mas organizar decisões sobre programa, coalizão e candidaturas. Até que essas definições sejam formalizadas, o debate entre uma identidade construída pela oposição e uma proposta própria continuará aberto.